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Por Alexandre Salém - Lampejos de Infância !

Posted on sexta-feira, 7 de abril de 2017 | No Comments

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Ex-Deputado Estadual-Ma
Véspera de uma visita que o governador José Sarney fez a Codó em meados de Abril de 1966, a cozinha da casa do meu avô Naby Salem estava num indefectível alvoroço entusiasmado que temperava de permeio a feitura de banquetes. Ainda com nove anos eu transcetava por entre os empregados condimentado pela euforia deles. Ao invés de reclamarem da trabalheira, gostavam muito quando seu Naby recebia gente importante. Aqui e acolá, movido por um pico de pueril alegria, eu levantava a saia de Ciça e outras lá. Receptivas, diziam entre frouxas gaitadas: “Êta menino saliente!” E quando Celé, a espirituosa chefa da cozinha, num melodioso tom chistoso completava:“Tem pra quem puxar”, era como lisonja encorajadora para me embiocar debaixo da saia dela. Eu era, e não abria mão de sê-lo, o recreio concomitante à faina da criadagem. Todavia, o nível hormonal da tenra idade ainda não era suficiente para suscitar a intenção de ver as partes íntimas delas; portanto, menor do que o prazer de cumprir a contento minha deliciosa tarefa subentendida de adubar o clima de festa pandegando. E com minha avó Vitória ausente, pois estava em São Luis, aí é que me soltava mesmo. A cozinha estava sob o comando de Celé, aplicada quituteira que se esmerava a fim de receber elogios à sua arte, pois de louvor culinário parecia viver; e o que não faltava era quem a louvaminhasse pelo paladar despertado. Lembro-me que nesse dia dormi cedo, repuxando o lençol como se fosse o dia para raiar logo. Por diante, na minha cacholinha os excessos na cozinha do meu avô incutiram que um governador era símbolo de prodigalidades.
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Quando a alva já despia a madrugada, ouvi os passos largos e displicentes do meu avô Naby  Salem adentrando nossa casa, contigua à dele. Vinha, ainda de pijama, chamar meu pai. Pelas gelosias da janela réstias de luz fresca já invadiam meu quarto, trazendo junto o aroma aceso de quibe assando no forno. Meu olfato recreativo informava prenúncio de festa grande. Ao pular da cama na maior disposição, minha mãe já estava rente, segurando minha farda do colégio. Em saudação a Sarney ia ter desfile de colegiais sob o compasso da banda marcial do Tiro de Guerra. A cidade se arregimentava para homenagear o jovem governador do Maranhão Novo. Do quarto, enquanto minha mãe me arrumava, ouvi meu avô do terraço que unia a casa dele à nossa apressar meu pai dizendo que o avião do governador ia pousar no campo de aviação às oito horas. Avisou e foi tomar banho. Assim que fiquei pronto na farda, dispensei o café reforçado que minha mãe havia preparado e corri pra casa do meu avô, doido para delibar quibe assado sob seu olhar carinhoso; porque com ele junto o quibe era mais gostoso.
             
Estava à mesa a me empanturrar de quibe, mãos já lambuzadas, quando vi meu avô sair do banho enrolado na toalha. Esperei que viesse direto para a mesa, como de praxe. Desta feita não me fez os afagos corriqueiros. Acostumado com seu espírito aberto, brincalhão, pude observar que seu semblante discrepava da recepção que preparara. Com efeito, as linhas sulcadas da face perfaziam o desenho de algum mal estar. Demorou pouco e meu pai chegou, vistoso no linho. Foi direto ao quarto onde estava meu avô. E lá, em vez de vê-lo se aprontando, meu pai o vira deitado. Meu pai então perguntou o que ele estava sentindo. Disse-lhe meu avô que não estava bem para ir ao campo de aviação, e que meu pai fosse logo, pois o avião não tardaria a chegar. “Nada disso. Nós vamos juntos”, da mesa ouvi meu pai replicar alto. Querendo que a dor no peito que meu avô sentia fosse gases, meu pai mandou que eu fosse a nossa casa pedir sal de frutas a minha mãe. Com a urgência de festa, trouxe o sal de frutas. Mas nada de a dor passar. A certa altura, com meu pai insistindo para o seu se arrumar, o avião zoou. Meu avô então, já com voz cansada, lhe disse para ir buscar Zé Murad, cardiologista de renome que compunha a comitiva do governador. Sabia o que sentia.
             
 Quando meu pai retornou do campo de aviação com o Dr. Zé Murad a tiracolo, azafamado o conduziu direto ao quarto; o avião de Sarney ainda não tinha pousado, só o da comitiva. Lá, à cabeceira da cama, já estava o Dr. Anselmo, suado, manuseando frenética e conjugadamente estetoscópio e aparelho de auferir pressão. Com seu peculiar jeito aligeirado, Dr. Murad assumiu os cuidados. E ao auferir pressão arterial, inferiu que o quadro era dos piores. O clima de festa que ainda habitava meu espírito se dissipou duma vez quando um rumor sombrio vindo do quarto me alcançou. Voltei correndo. Arregalado, enfiei a cabeça por entre as pessoas aglomeradas à porta do quarto. Assustado, pude ver um traço rubro e tênue ao canto da boca realçar a lividez da passagem, confirmada pelo grito desesperado do Dr. Murad: “Gente, Naby morreu”. Meu pai não arredava da cabeceira da cama, onde já o vi aos prantos, implorando aos médicos para ressuscitar o pai dele. Meu tio Murilo estava junto, também aos prantos. Aos nove anos eu não tinha a dimensão da morte, que a mim teve a elegância cuidadosa de se mostrar aos poucos; pois só acreditei nela quando a vi no caixão, poderosa, impedindo meu avô de viver. De chofre, aquele clima de festa convolou para funeral. Extremos distantes cujo antagonismo férreo endureceu o instante para que eu pudesse percorrer sem cair.
                
Quando o governador Sarney chegou escoltado por numerosa comitiva, acionou um seletor (que só ele tem) de sintonizá-lo às emoções diversas e, sem depreciação do cariz carismático, compôs solene ar condolente automaticamente. E, num gesto solidário, inaugurou as exéquias ao puxar o lenço; em vez de fita enlaçada inerente às inaugurações que faria. Ao lado do governador, o ministro da saúde mussitava ave-marias num visível bigotismo. Minha avó, àquelas alturas, voava para Codó. Meu tio Abdo, irmão dele, plantou uma cadeira ao pé do caixão e, carpido, se pôs a balbuciar lamúrias em árabe enquanto acarinhava a mão lívida do irmão, encruzadas e envoltas em um rosário. 

Do caixão tio Abdo não se afastou mais, tampouco aliviou a plangência, copiada copiosamente por quem quer que ouvisse seu entôo comovente, tirante a melismático. Tanto a casa como a praça defronte (que hoje leva seu nome) estavam com lotação esgotada. Por volta do meio dia o típico burburinho funéreo foi abafado pelo zoar do teco-teco que trazia vovó Vitória. Para ela a multidão abriu alas, descortinando o caixão no meio da sala. Guardo num indelével engrama o instante em que minha avó se debruçou sobre o corpo e o seu afago condoído finalizado com um demorado último beijo na testa do nosso amado. Metade da criadagem servia cafezinhos e a outra cuidava de mim, que intercalava biquinhos de choro procurando entender um inextricável vazio que minha inocência já pressupunha impreenchível. Recordo-me de seu Nagib que, mesmo deficiente de uma perna, fez questão de disputar uma alça do caixão do patrício querido. E, sob o sol bochornoso e tristonho desse infeliz dia seguinte, lá se ia o homem que alavancou Codó para a modernidade e até hoje me inspira.

Alexandre Salem, ex-deputado, romancista.

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